f Adeus, verde.

27 de mar. de 2014

Um amor visto da janela


Da minha janela sempre pude observar aquele casal. Eles sempre me pareceram muito felizes. Eu enxergava da minha janela da sala, a sala deles e a cozinha do apartamento, da janela do meu quarto eu conseguia ver direitinho a cama deles, uma estante grande com livros e um pequeno criado-mudo onde em cima volta e meia tinham copos ou garrafas de aguá. Eu realmente gostava de olhar a maneira carinhosa que eles se tratavam, o olhar apaixonado que os dois se trocavam quase que tempo todo. Toda a semana eu via eles dentro da cozinha, enquanto um cozinhava o outro ficava pra lá e pra cá, as vezes arriscava cortar uma cebola, um tomate, ou até mesmo lavar uma louça ou outra. Eles costumavam ouvir música enquanto o jantar era feito, ou durante as tardes sentavam na sala para tomar um chimarrão, e não paravam de falar, só paravam para se beijar. Algumas vezes eu os encontrei no pátio do condomínio, cada um em uma cadeira, bem próximos um do outro, ás vezes comendo bolo, salgadinho, essas coisas que gente jovem e apaixonada comem. Eles estavam sempre sorrindo, brincando um com o outro, provocando, se instigando. 

No final de semana eu adorava ver eles se arrumando dentro do quarto, um mais bonito que o outro, eu acompanhava eles escolhendo a roupa, se perfumando, se olhando no espelho, tirando fotos juntos e se abraçando a cada 5 minutos. Depois disso eles saiam, provavelmente para dançar, para beber, na casa de alguma amiga, ou de um casal de amigos, ou poderiam estar saindo apenas para jantar juntos em algum lugar legal, em um restaurante bacana ou até mesmo em uma carrocinha de cachorro-quente. Eles pareciam não ter frescura nenhuma, era o tipo de casal que poderiam se hospedar em um hotel 5 estrelas ou dividir um colchão inflável furado por algumas noites. Eles eram parceiros um do outro, isso dava para ver de longe. Daqui da minha janela eu conseguia ver muitas coisas, eles eram muito diferentes um do outro, cada um tinha uma personalidade muito sua, e muito forte também. Um era muito carinhoso, mas o outro não ficava atrás, um era muito bravo, mas o outro conseguia desfazer isso rapidinho. Olhando aqui da janela, aqueles dois não tinham problemas, olhando aqui de cima aqueles dois tinham sido feitos um pro outro, eles eram felizes.
Eu nunca mais vi eles juntos. As janelas andaram fechadas por uma semana, e antes delas se fecharem eu consegui ouvir algumas discussões, consegui ver a porta fechar várias vezes, ficando sempre um dentro do apartamento e outro fora, indo embora. Um sumia pelo portão, e o outro no meio das cobertas da cama. De repente aquela cozinha ficou vazia, as panelas não saiam do lugar. O sofá da sala também ficou vazio, nunca mais eu ouvi a chaleira apitar avisando que a água do chimarrão havia fervido. As cadeiras que todo o fim de tarde enfeitavam o pátio, já estavam empoeiradas dentro daquele apartamento. No final de semana eu só enxergava um deles se arrumando, se perfumando, se olhando no espelho, o outro deveria estar fazendo a mesma coisa em algum outro lugar. Eu nunca mais vi eles juntos.
E eu também nunca mais olhei pela janela. 
Fiquei aqui pensando como são essas coisas. Como pode uma relação se acabar e ponto. Tenho certeza que eles devem saber os motivos, ou também não saibam direito. Tenho certeza que os dois são jovens o suficiente para ficarem bem, para não sentirem tanta dor, ou pelo menos não por tanto tempo. Acredito que logo eles consigam sorrir de novo, e estarem de coração aberto para as coisas que a vida vai tratar de colocar no lugar daquilo... Daquilo tudo que foi planejado um dia: dos lugares que iriam visitar, da casinha que iriam morar, da decoração das paredes, a cor do microondas, a frase do tapete da entrada, ou os nomes dos filhos, dos dois filhos, o jeito que iriam criar, educar, quem seria o Pai "babão", e o mandão. As profissões, vida e rotina que teriam juntos. A vida trata de colocar outras coisas no lugar de tantos planos, outros sonhos, quem sabe? Aqueles dois merecem muito ser felizes, cada um com sua essência, cada um com sua história, cada um com seu coração e sua forma de amar. Todos merecemos ser felizes.
Resolvi abrir minha janela e colocar flores bem bonitas, quem sabe assim eu não ajude aquele menino a sorrir. Quem sabe assim eu não possa ver os dois juntos, de novo.

19 de mar. de 2014

Faltou Força


Descobri o que está acontecendo, cheguei no motivo de tanta confusão, de tanta insatisfação, de tanta angústia e sentimentos ruins que andaram se tornando frequentes no último mês. Acreditem, mas quem está escrevendo agora esse texto é o mesmo cara que escreveu os outros 78 desse Blog, o mesmo garoto que passou por toda essa barra que é lutar contra um Câncer, que é lutar por sua sobrevivência. Hoje estou fraco e bastante perdido, e não estou fraco por ter passado por uma semana intensa de Quimioterapia, e muito menos perdido por não saber se vou conseguir vencer aquela doença. Eu já venci, eu já passei por todas aquelas semanas que não tinham fim e que me tiravam a força, que me faziam chorar no colo da minha mãe e implorar pra ela para que acabassem logo. Hoje estou fraco porque me perdi no caminho, porque fazem apenas 4 meses que meu tratamento terminou e eu achei que poderia ter uma vida normal, que era apenas levantar da cama, sair correndo e começar a viver, assim sem olhar para os lados, sem olhar para trás. Acabei me perdendo, tropeçando em diversos defeitos que a Quimioterapia não conseguiu eliminar, coisas muito minhas, muito pessoais, e que não seria o Câncer que iria levar embora. 

Sou um jovem muito feliz e realizado por ter passado pelo que eu passei, por ter conseguido a vitória que tanta gente busca, por ter vencido uma luta que muitos perdem, mas, sou apenas um jovem, e como o subtitulo do meu Blog lembra, eu sou um jovem amadurecendo, em processo. As coisas andaram bem feias por aqui, pesadas, acabei ficando sem saber lidar com uma porção de coisas, acabei chegando na insatisfação de perceber como a minha vida estava estruturada, ou melhor, de como ela não estava estruturada. Eu perdi minhas forças, perante a nada, perante motivo nenhum, e todos a minha volta (família, namorado e amigos) não entenderam nada, não me reconheceram em nada, não admitiram que uma pessoa que mostrou tamanha força em um problema tão grande, hoje esteja enlouquecido e destruído por coisas tão pequenas. Confesso, que também não admito, que também sinto decepção, também acreditei que depois de curado a minha vida ia dar uma alavancada, que eu ia ser uma outra pessoa, mas, me desculpem, não é bem assim.
Precisei de muita força, de muita mesmo para passar por todas aquelas sessões de Quimio, para aguentar mais de 6 horas diárias de medicamentos fortíssimos direto na veia, precisei de muita força para ver meu cabelo cair cada dia mais, para ver meu rosto se transformar em outro, precisei de mais força ainda quando as reações começavam, quando eu passava o dia inteiro enjoado, ou vomitando, sem conseguir comer, sem conseguir me secar depois do banho, usei toda essa força para conseguir vencer, para conseguir estar com a minha família e amigos no dia do meu aniversário, para conseguir pegar um sol no pátio. Enfim, o que eu quero dizer é que gastei muita energia nisso tudo, gastei toda essa força para estar vivo hoje, então é claro que assim que levantei da cama após curado eu tropecei, eu cai, eu fraquejei, eu fiquei sem saber pra onde ir, pois eu estou fraco, ainda estou debilitado e processando tudo que eu passei, por mais que não pensasse mais nisso, que agisse como alguém que superou, só agora essa verdade bateu em mim, e é óbvio que não tenho energia para fazer um relacionamento dar certo, ou para traçar mil metas e conquistar todos os meus objetivos, ou para acabar com os meus velhos defeitos e colocar em prática tudo aquilo que aprendi com a doença. Calma. Calmem.

Eu preciso respirar, preciso me encontrar novamente, preciso criar uma nova força, para começar a construir a minha vida, para me tornar uma pessoa melhor e mais evoluída, minha bagagem está toda aqui comigo, eu tenho certeza disso, eu só preciso tirar tudo de dentro da mala, e começar de novo. E é exatamente isso que estou fazendo hoje, voltando para o meu Blog, que é a minha grande realização, voltando a me entender melhor, voltando a respirar mais aliviado, e principalmente indo em busca de uma ajuda psicológica, de um profissional que me ajude a entender os mil pensamentos de um jovem amadurecendo.
Desculpa a quem decepcionei, mas á vocês só posso pedir paciência, e garantir que logo, logo uma pessoa melhor e menos "verde" está chegando por aí.

27 de fev. de 2014

A Gaiola


Andei bem afastado eu sei. Pra ser sincero com vocês e comigo mesmo, andei bem afastado de mim, ou pelo menos do cara que eu imaginava me tornar. Depois da cura do meu Câncer, depois de seis meses trancado em casa, eu novamente pude sair para a vida, e acredito que desejei tanto sair, que saí rápido demais, com tanta sede por viver que acabei tropeçando em velhos defeitos, acabei atropelando algumas lições básicas que aprendi com essa doença.
Continuo graças a Deus curado, minhas sobrancelhas voltaram tão espessas e pretas como antes, meus cílios já estão longos e curvados, minha barba tenho que fazer toda semana, e o meu cabelo esta crescendo bastante e só agora começou a enrolar, exatamente como os meus pensamentos. Passei por bastante coisa, coisas que vocês acompanharam junto comigo aqui pelo Blog, passei por tudo isso, fui fundo a procura da minha força, da minha fé e da minha coragem, e hoje fico surpreso ao reparar que em alguns momentos eu consiga esquecer disso tudo. Posso confidenciar pra vocês que não é fácil mudar totalmente, não é fácil amadurecer do dia para a noite, arrancar aqueles defeitos que levamos a tanto tempo junto de nós. Eu realmente acreditei que passar por essa doença e por todo esse processo dolorido iria me transformar completamente em uma outra pessoa, mas, não funciona exatamente assim, tudo é um trabalho, é um dia depois do outro, são fichas que vão caindo aos poucos, conforme as situações vão aparecendo. É um trabalho diário, de mudança e de amadurecimento, percebi que eu estou todo dia dando Adeus, ao meu verde, é um eterno processo. 
Andei afastado do Blog pois fui viver o que a vida me apresentava, receber um novo amor em nossa vida requer um tempo de dedicação, como receber um hóspede, temos que gastar algum tempo dando uma geral na casa, e sendo atencioso a essa nova pessoa. E acredito que dando essa geral na casa, acabei esbarrando em muita coisa que precisava ser mudada, trocada ou simplesmente ir fora, pois não tem mais utilidade alguma. Estou cheio de coisas na cabeça e pensamentos que fervilham, pois sou um cara inquieto mesmo, que está sempre escarafunchando em suas opções e encarando seus medos, suas travas. Estou sempre procurando me entender, tentando entender meus sentimentos. 
Agora estou aqui novamente, buscando o que tenho de melhor, tentando mais uma vez resgatar tudo que aprendi ao longo dos últimos meses, acreditando que sou capaz sim de mudar coisas que parecem tão difíceis, estou disposto a peitar qualquer decisão que eu tenha que tomar, em nome da minha felicidade, em nome da minha paz. Sinto que minhas asas cresceram e que não posso mais continuar nessa pequena gaiola, ela já está velha e apertada demais. Preciso me soltar, e voar. Ser uma pessoa melhor.

13 de fev. de 2014

Motivos para se apaixonar


Não tem como entender. Não existe receita ou fórmula mágica, não existe um caminho certo a se percorrer quando se trata de amor, quando se trata de paixão. Estar envolvido, apaixonado ou amando é assim mesmo, um tiro no escuro, um caminhar sem enxergar. Os apaixonados se enchem de certezas e ao mesmo tempo de dúvidas, os apaixonados se jogam mas ao mesmo tempo seguram firme em seus medos e receios. Os apaixonados nem mesmo sabem exatamente porque estão apaixonados. Eles só sabem que estão. Estão envolvidos, enrolados e enrascados, "ferrados" por esse sentimento tão maluco que é a paixão. Fulano pode ser a pessoa mais centrada e correta do mundo, mas se um dia ele acordar e perceber que está apaixonado por aquela pessoa que até então ele via esporadicamente, que gostava de sair e conversar, e dar uns beijos sem compromisso no fim da tarde ou no meio da noite, aí tudo muda, não existe mais a pessoa centrada e correta, existe apenas uma pessoa entregue e disposta a tudo.
Ninguém sabe dizer só um motivo pelo qual se apaixonou, justamente por nunca ser só um. Paixão envolve diversos motivos para acontecer. Se me perguntassem porque me apaixonei, eu diria o seguinte: Eu me apaixonei pelo olhar, pela forma que me olha, que me instiga, por aquele olhar inquietante de quem quer ver além do meu rosto. Apaixonei pela maneira de falar, pela maneira de me interromper, o jeito de cantar, o jeito de me beijar, pelo sorriso no fim do beijo, pelo sorriso no meio do beijo. Eu me apaixonei pela história de vida, por tudo que passou, mas, principalmente pelo que deseja passar. A paixão aconteceu no meio das conversas, entre uma cerveja e outra, entre um suspiro e uma pausa, entre uma coisa em comum e uma diferença gritante. Esse sentimento cresceu enquanto eu aguardava a resposta de uma mensagem, enquanto pensava no que responder, cresceu conforme a madrugada ia chegando e o nosso assunto não tinha fim. A paixão aconteceu enquanto a gente dividia a cama, quando mesmo dormindo me abraçava forte e me puxava pra perto. Eu me apaixonei pela manhã, quando via acordar, com aquela cara amassada e aquele "bafinho" matinal, pela maneira que pulava da cama, que preparava o chimarrão, o café ou um sanduíche.
A "paixonite" aumentava a cada discussão, a cada briga pelo meu ciúmes, pelo teu ciúmes. Cada vez que surgia os medos, as incertezas, as dúvidas, todas aquelas coisas que rodeiam a cabeça de quem está muito feliz, por isso os problemas eram inventados, para gente poder gritar, sacudir, esmurrar uma almofada, só pra provar para nós mesmos o quanto a gente se ama, se gosta e se cuida. Eu me apaixonei pelo banho de piscina; pela noite na casa da amiga; por uma mensagem no meio da tarde; por ter cortado cebola enquanto você preparava a massa; pelo jeito que nos atiramos no sofá, na cama; ou por aquela festa que bebemos juntos e depois voltamos de pés descalços e mãos dadas pela rua. Apaixonei pelo fato de eu poder ser eu mesmo, sem máscaras, sem fingir ou ter que fazer joguinhos.

A gente se apaixona quando tem que ser, quando os astros abençoam, quando os anjos dizem amém, quando o universo conspira a favor, quando os dois querem e lutam pela mesma coisa. Estar apaixonado é estar na beira de um penhasco fazendo um piquenique, uma mistura de bem estar e medo, de alegria e receio, é um prazer perigoso. É lindo quando encontramos alguém disposto a viver essa loucura, quando encontramos a pessoa que vai sentar na sua toalhinha xadrez, abrir a cesta de frutas e admirar ao seu lado toda a imensidão daquele penhasco apavorante, mas, com a certeza que está em um paraíso.