f Adeus, verde.

4 de mai. de 2015

Tempo de inverno


Com o inverno chegando é a hora de abrir os maleiros, de revirar aqueles sacos grandes que estão entupidos daquelas roupas quentes que deixamos de ver por um longo tempo. O tempo que o sol e o calor imperaram. Seguindo esse velho ritual, hoje foi a vez da minha mãe fazer isso, fez a limpa geral, roupas para doar, para pegar vento, para lavar, enfim, desapegar ou reciclar.

Em uma das sacolas ela tirou uma toca, que usei durante todo o meu tratamento, a velha toca de um ano e meio atrás, onde muito aconcheguei minha careca durante aquele inverno, que foi particularmente frio e amedrontador, devido as incertezas que o câncer me trazia.

Digo tudo isso, somente para observar as mudanças do tempo, e dessa vez não falo do tempo meteorológico, mas sim, do cronológico, do passar dos anos, da quantidade de invernos que acumulamos em uma vida.
Meus caros, tudo realmente passa. Tudo realmente muda, o tempo todo.

As ressacas passam, por maiores que sejam os porres.
Brigas chegam ao fim, por maiores que sejam os rivais,
Amores por maiores e mais intensos que sejam, acabam por findar.
As tempestades se acalmam por maiores que sejam os ventos ou o barulho.

É a lei do tempo, o poder que os dias tem de transformar tudo. De encerrar e iniciar acontecimentos.

A verdade é que os invernos não mudam, quem muda é a gente.
Mudei porque não deu.
Mudei porque me apaixonei.
Mudei porque chorei.
Mudei porque sonhei.
Mudei porque acordei.
Mudei porque caminhei.
Mudei porque sim.
Mudei porque o tempo passou.

Arrumem seus maleiros, coloquem abaixo aquelas sacolas fechadas. Se aqueçam e mudem.






9 de fev. de 2015

Reparos


Reparo em silêncio e apenas comento em voz baixa sobre as sutis mudanças que aconteceram em mim. E digo sobre mudanças internas, perdi nesse último trecho da caminhada alguns sentimentos e manias que sempre me acompanharam e que por muito tempo usei para definir minhas principais características. Não perdi a personalidade, mas dei uma boa recauchutada.

Nunca fiz questão de esconder a minha intensidade perante as coisas da vida, mas, principalmente perante a uma possibilidade de amar. Todos os amigos (principalmente eles), família e até o porteiro do meu prédio sabem da minha fama de passional, do quanto o Felipe se entrega e ama até se doer inteiro, o quanto sou feliz (e o quanto sofro) vivendo e experimentando esse mundo a dois, a cada nova paixão.

E agora como vou explicar para os meus amigos que não sou mais esse cara? que depois de anos colocando o amor no alto da minha lista de prioridades (AMOR grifado e com asteriscos do lado) hoje simplesmente ele se encontra bem embaixo da folha, que a saúde, o dinheiro e o trabalho são os grifados da vez. A tal intensidade despencou, emagreceu, perdeu a graça.

Estou mais sóbrio agora, depois dessa grande festa das escolhas erradas, desse eterno open bar de amores fracos, de amar por amar.

Não sei o que lhe parece esse texto, mas não pense que é a escrita de alguém desiludido ou recalcado. Pelo contrário. Continuo aqui cheio de amor, e amaria quantas vezes mais fossem necessárias, apenas me encontro lúcido diante dos meus sentimentos.

Reparo em silêncio a leveza do que me cerca agora, das coisas que não possuo mais, que simplesmente se desprenderam de mim, ficaram no tempo e nas lembranças.

9 de jan. de 2015

Longe de casa, 2° Noite



Observo-me sentado em cima de um colchão inflável, com um notebook recém comprado sobre o sofá, também novo. Ouço agora apenas o barulho do ventilador de teto, que refresca um pouco mais essa noite, esse apartamento. No meu lado direito (e do notebook também) repousa meu livro, onde procurei abrigo durante algumas horas da tarde. “Dupla Falta”, o título.

Percebo-me sozinho. Dentro desse espaço, que agora chamo de meu apartamento.
Totalmente sozinho. E logo, reparo, o quanto estou tranquilo.

Paredes brancas, sofá preto, duas cadeiras de madeira acompanhadas de uma mesa, um guarda-roupa (onde escondo as minhas duas malas ainda não desfeitas), a cozinha pequena, um banheiro todo branquinho... E eu. Apenas eu.

Se esses dias não forem algo parecido com “se auto conhecer”, eu não sei mais...

Estou comigo dia todo, do abrir dos olhos, ao fechar e abrir de novo por conta de algum pesadelo. Nunca estive tão integralmente comigo. E acho maravilhoso, não só pelo fato de ainda não ter lavado a louça do almoço (não se preocupem, vou lavar), mas algo muito mais profundo que isso. Como disse, observo-me tempo todo. Converso diariamente com meus defeitos e com minhas incríveis capacidades. Converso e discuto meus planos e vontades a todo pulmão. Escuto-me cada dia mais.

Permito até mesmo interromper a escrita desse texto, para dar risada com minhas amigas do Rio Grande do Sul via redes sociais (WhatsApp). Pensando bem, nem estou tão sozinho assim.

Em cima do livro já se encontra meu celular, estou com os joelhos sobre o colchão inflável, pronto para buscar o ponto final do que escrevo, pois ainda preciso saborear a massa que preparei. De tudo, o que importa, é isso... Estou tranquilo. Livre.


5 de jan. de 2015

Carta para Deus


Olá Deus,

Estive ausente, confesso. Pelo menos em oração. Apesar de acreditar que minha felicidade e gratidão falam por mim. Nunca esqueci o que o senhor fez e vem fazendo para me ajudar. Um pouco mais de um ano atrás clamei diariamente pela minha vida. E aqui está ela. Estou vivo. E muito bem.

Volto a escrever para o senhor, e peço licença para descarregar mais alguns pedidos... Deus, estou mais uma vez batendo a porta da minha casa e indo embora. Mais uma vez vou segurar o choro enquanto abraço apertado a minha mãe, impedindo que ela repare na lágrima que certamente vai vir mais forte enquanto cruzo o portão de embarque.

Eu quero ir embora. O senhor sabe disso, ela sabe disso.

Mas nem por isso deixa de doer, é a chamada saudade, que a cada ano entendo um pouquinho melhor. 

Sei que logo estou de volta, tenho um compromisso com a minha saúde, e quanto a isso vocês dois não precisam se preocupar. Em fevereiro estarei aqui novamente, provavelmente em cima dessa cama, olhando para esse computador.
Ia quase esquecendo dos meus pedidos... Ilumina meu caminho, abre meus olhos e faça que eu enxergue tudo com mais clareza. Ajuda a administrar essa vontade louca de ser livre, deixa eu entender porque não quero criar raízes. Me protege. Abraça forte e pega a minha mão toda a noite. Sussurra no meu ouvido as oportunidades certas. Eu quero um sorriso ainda maior na minha boca. Quero ganhar de presente a tranquilidade de estar no caminho certo. Eu quero caminhos. 

E a última coisa... por favor, cuida dela, entrega tudo de melhor, pois ela merece. Tu fez uma grande mulher, uma grande mãe. E se hoje posso sair de baixo da asa dela com toda essa facilidade, é justamente a prova de tudo que acabei de escrever. Ela é incrível. Que tudo dê certo, assim que eu cruzar o portão de embarque. Amém.