f Adeus, verde.

23 de jan. de 2014

Gato escaldado pode amar


"Gato escaldado tem medo de água fria". Essa é uma boa e sincera expressão. Somos assim: se você passou por algum acidente de carro grave, certamente vai demorar algum tempo para voltar a entrar em um veiculo; se passou um suador no avião que tremeu e tremeu até as máscaras de ar caírem na sua frente, com certeza vai ficar longe dos aeroportos por bastante tempo; se as águas do mar já lhe tiraram alguém importante certamente você vai ter cautela ao brincar nas ondas; se aquela maionese do boteco fez um estrago na sua flora intestinal sem dúvida você vai esquecer que existem maioneses em botecos. Somos assim, e com o amor não poderia ser diferente. Se alguém quebrou tua confiança alguma vez, pronto, vai ser difícil você confiar em outro alguém; se alguém fez promessas que não foram cumpridas você passa a querer mais que somente palavras; se alguém lhe omitiu muitas coisas você vai começar a buscar a mais pura transparência possível. Fim de relacionamento é acidente de carro, é tremor no avião, é afogamento, e maionese podre. Fim de relacionamento sempre deixa feridos, sangra, dói e fica marcas. É assim com todo mundo, não existe como fechar a porta sem chorar, sem sentir um vazio, e sem se perguntar "porque?" ainda mais quando esse final consegue ser mais turbulento que aquele avião, e nesse caso nem tem a opção "máscara de ar". Você precisa peitar sozinho, a começar por essa palavra: "sozinho", é teu estado/status agora, do dia para a noite você deixa de ser dois e se torna um, acredito que é essa mudança radical que faz tudo parecer pior do que realmente é. Fim de relacionamento faz você se esconder por algum tempo, faz você querer distância dos homens/mulheres, pelo menos por algum tempo. O mesmo processo que você faz após o acidente de carro é o que você faz após acabar a sua relação, você vai cuidar das feridas, vai avaliar os danos, vai fazer as ligações que precisa fazer, vai tentar dormir rezando para não lembrar daquele dia, e depois vai tratar dos traumas.
Dias e noites passam. Semanas passam. Meses. E, de repente até alguns anos. E, aí está você agora, entrando naquele aeroporto e pegando o primeiro voo rumo á sua felicidade, pra depois alugar um carro e andar por todo o mundo, admirando a vista, curtindo o ar e a cultura de cada lugar, parando pelos bares, restaurantes e botecos, experimentando de tudo e perguntando ao garçom "tem maionese?". Mas, o melhor mesmo é quando você se atira no mar de corpo e alma, sentindo que cada onda que passa leva teus rancores, tuas mágoas, teus medos, e você sorri para a câmera que te filma, que te fotografa, e berra de lá do meio das águas: "tá conseguindo pegar o sol, amor?" "vou mais pra trás ou aqui tá bom?" "to saindo bem nessas fotos, amor, tem certeza?".

Somos assim. Gato escaldado tem medo de água fria, mas, ele não deixa de viver. Uma hora ou outra devemos nos permitir, devemos acreditar que nem todos os carros irão bater e nem todas as pessoas irão magoar você, devemos acreditar que existe alguém que queira uma transparência mais nítida que a tua, que existe aquela pessoa que vai fazer de tudo para ser correto e para cumprir todas as promessas que fizer a você. Temos que acreditar que existem relacionamentos que não foram feitos para ter um fim. Que nem todo acidente é tragédia, que nem toda a turbulência é sinal que vai cair, e que um mar de possibilidades nunca vai te afogar. Temos que acreditar no melhor. Temos que apostar alto quando se trata de felicidade e de amor. Eu acredito. Eu aposto. E você?

Dedicado a quem me fez acreditar.

21 de jan. de 2014

Dizer Adeus


Diante da morte ficamos paralisados. Em nenhum momento as palavras faltam tanto como nessa hora, quando temos que nos despedir de uma pessoa que amamos ou quando temos que confortar quem passou por essa perda. A morte é sempre pesada, é sempre muito dura de encarar. A morte traz uma realidade que esquecemos no dia a dia, a realidade da fragilidade que é viver, é quando somos atropelados por uma noticia dessas que percebemos o quão delicado é tudo isso, só assim a gente se dá conta que a vida é um sopro. Tenho apenas 23 anos, não tive muitas perdas, e as que tive eu era muito bebê, então nem me recordo, fui protegido na época pelo fato de ainda não entender o que significava aquilo, tive a sorte de ter aquela memoria superficial, onde as coisas eram esquecidas facilmente. Foi assim quando perdi meu Pai, eu tinha apenas 1 ano e 8 meses, estava começando minha vida, comia e dormia com grande facilidade, então não percebi o que acontecia dentro da minha casa, não percebi que minha Mãe e meus irmãos ficaram tristes de uma hora pra outra, não percebi a correria que a noticia da morte repentina do meu Pai trouxe para minha família, não percebi que meu Pai simplesmente sumiu, que eu não ia mais ver ele fazendo a barba no banheiro, eu era apenas um bebê e estava dentro do meu berço, enquanto minha Mãe estava com o guarda-roupa aberto escolhendo a roupa que meu Pai ia vestir pela última vez, enquanto algum padrinho, ou algum tio ligava para a funerária para escolher caixão, flores e alças, tem coisa mais louca do que isso? ter que enfrentar a burocracia, ter que fazer contas, ter que avisar as pessoas, ter que se vestir, ter que sair de dentro da sua casa em uma hora dessas, existe coisa mais inadequada que a morte?

Eu realmente tive muita sorte, fiquei imune a toda essa dor. Mas, hoje tenho a consciência de tudo que a minha família passou, de quanta dor uma morte precoce e sem aviso prévio pode causar nessas pessoas que estão conscientes naquele momento. Quando conseguimos observar a morte se aproximando daquelas pessoas mais velhas, já muito doentes e debilitadas, ainda assim nos causam dor, claro, mas, conseguimos ter o discernimento que a vida seguiu seu fluxo natural, mas, quando perdemos alguém que é muito novo, alguém que a gente nunca imaginou perder, alguém que até ontem estava tão vivo quanto você, alguém que tinha uma grande estrada pela frente, aí é duro dizer adeus, é duro entender, todo esse processo é muito dolorido. Mortes estúpidas nos baqueiam, nos deixam sem movimento e sem expressão. Acredito que cada vez que acontece uma perda assim um sorriso se apaga no mundo, ficamos tristes junto com essas famílias, se estamos de fora e ficamos assim, imagina quem vivencia isso tudo de dentro, imagina quem tem que continuar sua vida depois disso, pois, a vida sempre continua, depois de dizer adeus a quem você tanto amou, é preciso ir para casa, enfrentar as lembranças de um quarto, das roupas, do cheiro, de uma vida, é preciso se alimentar e tomar um banho, é preciso fechar os olhos para tentar dormir, seu trabalho, seus compromissos, as sacolas do mercado cheias de coisas para guardar ainda estão esperando por você, esperando você. Uma hora a vida tem que ser retomada, a dor e a saudade vão ficar por ali, rondando e invadindo seu quarto em algumas noites, mas, acredito que as orações, que a força que todos estão mandando vão ajudar, vão ajudar você a dormir, a sonhar com coisas lindas, e no amanhecer você vai estar mais forte. Deus, o universo, e todas as pessoas que te rodeiam estarão com as atenções e o amor voltados pra você e sua família. Acredito que algo muito maior que nosso entendimento acontece nessas horas, trazendo uma força e um conforto que são precisos e indispensáveis nessa caminhada, aquela pessoa amada vai estar no outro plano, ajudando você a aceitar que esse era o caminho que ela precisava percorrer, que tudo está certo apesar de não parecer, e que a paz, a felicidade, e a harmonia do seu lar vão voltar logo logo, com o tempo. Que Deus preencha o coração de vocês, e que segure tua mão bem forte a cada dia. Amém.

17 de jan. de 2014

Interrogando a Vida


Aqui estou eu mais uma vez pensando sobre a vida, sobre a minha vida, sobre a tua vida, sobre as nossas vidas. Aqui estou em mais uma madrugada tentando entender um pouco mais sobre essa coisa que é viver. Tentando achar explicação para coisas que eu sei que não existe explicação, para coisas que devem ser vividas e não entendidas. Se a gente for atrás de todas as nossas dúvidas sobre esse mundo, sobre quem somos, que papel exercemos, e porque exercemos, e qual o objetivo disso tudo, etc, etc... a gente vai longe, e ainda corre o risco de enlouquecer. Aprendi isso com a vida: que existe perguntas que nunca devem ser respondidas, ou até mesmo perguntadas. Viver é fechar os olhos para muitas coisas, viver vai além do querer entender, o que importa se foi o ovo ou a galinha que chegou primeiro? o que importa agora saber como estamos aqui se para isso é preciso duas pessoas de sexos opostos? como tudo se originou? que mágica foi essa? foi Deus? Foi o universo? foi uma célula? um macaco? enfim, as opções são infinitas e a resposta é uma só, uma resposta que ninguém tem. 

Acredito que nosso papel aqui nesse mundo, é ser feliz. Não falo isso da boca pra fora, tenho absoluta certeza que esse é o motivo de estarmos todos aqui, convivendo uns com os outros, buscando nossos sonhos, construindo ligações, montando lares, viajando, conhecendo pessoas e países, estudando, se dedicando, pintando, contracenando, plantando, colhendo, indo atrás, correndo, sempre se mexendo, sempre mudando, sempre tentando. Estamos o tempo todo buscando a nossa felicidade, até a pessoa mais infeliz ainda tem esperança de um dia sorrir. A grande missão no meu ponto de vista é evoluir, é conseguir sair melhor desse mundo do que chegamos, não consigo imaginar como é passar por toda uma vida da mesma maneira, sem mudar de opinião, sem enxergar as coisas de um outro lado, sem ceder, sem dar o braço a torcer. O grande barato disso tudo é a mudança, é a maneira como a vida sempre consegue surpreender, até mesmo aquela fulana que faz a mesma coisa todo dia, que tem uma rotina impecável a mais de quarenta anos, fazendo sempre tudo igual, tentando se proteger com o "de sempre", louca de medo do novo, até essa dona um dia é surpreendida, um dia a vida resolve acordar do avesso e trazer ela para essa valsa, a valsa das mudanças.
Estou entrando mais ainda na madrugada, gastamos muito tempo quando resolvemos pensar nisso tudo. Mas, vou dormir tranquilo, pois apesar de muitas perguntas que não foram respondidas nessa noite, eu me sinto um pouco mais maduro do que acordei, pois estou mudando. Mudanças costumam vir com encerramentos de ciclos, com inícios de outros, somente quando conseguimos fechar aquela janela com vista para o passado é que conseguimos sair pela porta da frente do futuro, sabendo que a estrada é repleta de surpresas, e se a gente estiver de coração limpo as surpresas são sempre maravilhosas.

16 de jan. de 2014

Rio de Janeiro


Existem aqueles sonhos que nos acompanham por muitos anos. Aqueles sonhos que alimentamos todas as noites escondido, sem fazer barulho e sem deixar pistas. Aqueles sonhos que por mais que pareçam distantes ou impossíveis a gente nunca deixa de acreditar. São esses sonhos guardados, empoeirados que fazem a gente acordar todo dia, que nos motivam a encontrar novos caminhos para chegar até eles.

Eu sempre tive o meu sonho. Desde pequeno, quando aos poucos fui experimentando as aulas de Teatro da Escola Municipal onde eu estudava, era somente naquele momento que eu podia ser eu de verdade, sem julgamentos, sem preconceito. Era naquela sala de aula, com as janelas pintadas de preto, com as cortinas escuras, com aquelas caixas de papelão cheias de fantasias, de acessórios, de possibilidades. Era naquela sala onde a iluminação era diferente, onde as cadeiras formavam um circulo, deixando o meio livre, livre para mim, livre para eu ser quem eu quisesse, foi naquela sala de aula que eu descobri o quanto prazeroso e empolgante era poder ter outras vidas. O quanto eu amava deixar de ser eu por alguns instantes. Com o tempo isso só aflorou, fiz curso de Teatro profissional, entrei para a Escola de Atores de TV e Cinema aqui de Porto Alegre, e essa vontade, essa paixão por atuar só foi crescendo. A vida, os compromissos, a necessidade de ter meu próprio dinheiro me afastaram desse sonho, foi isso que fez meu sonho ficar empoeirado, guardado, escondido em algum lugar, mas, a verdade é que eu nunca esqueci disso, continuo acreditando, é esse o sonho que alimento toda a noite, sozinho no meu quarto, é por isso que acordo todo dia e invento algum caminho para tentar chegar até ele.
Sempre soube que minha vida não é aqui onde estou hoje, sempre soube que apesar de amar Porto Alegre e de toda a minha estrutura, todas as minhas referências estarem aqui, aqui não é o meu lugar, não é a cidade que vou construir a minha vida, que vou trabalhar e conquistar minhas coisas, não é aqui que vou constituir minha família, ter meus filhos, não é aqui que vou ser Ator, não é aqui que eu vou estourar. Rio de Janeiro é o meu lugar. É lá que vou realizar meus sonhos, é lá que vou meter a cara de uma vez por todas para trabalhar com que eu amo, é naquele lugar que vou poder viver outras vidas, ser completo e realizado. Eu sempre quis isso. Sempre me imaginei lá. E, o mais estranho de tudo é que eu ainda nem conhecia o RJ.
Pois eu conheci, dia 07 de Janeiro ganhei esse presente da minha melhor amiga Michelly (que está na foto comigo), ganhei as passagens e a estadia de uma noite no hotel, foi apenas um dia, coisa muito rápida, deu apenas para sentir o ar daquele lugar, eu fui só dar uma espiadinha no meu sonho, mas, foi o suficiente para eu ter certeza de tudo. Rio de Janeiro é imenso, e apesar de toda a parte linda e maravilhosa, das praias, dos pontos mais turísticos, tem a outra parte, a parte suja, a parte pobre, a parte da violência, o fato do povo ser tão diferente do que eu estou acostumado aqui no Sul, era fácil de perceber que eu estava em outra cidade, tudo é muito diferente, tudo é muito mais rápido, tem que ser esperto. E apesar de tudo isso eu consigo aceitar aquela cidade assim mesmo, eu consigo amar aquele lugar exatamente como ele é, e eu sinto que ele está de braços abertos pra mim. A viagem renovou esse sentimento, essa vontade, esse sonho. A minha ida ao Rio de Janeiro só fez aumentar o meu desejo de tentar, de arriscar, de correr atrás. Sinto que meu sonho não está mais tão empoeirado, tão escondido, tirei ele da gaveta e coloquei em cima da cômoda, para que eu possa olhar pra ele todo dia, para que eu possa ter a certeza do meu destino.